Na política, a diferença entre vencer e sobreviver costuma ser enorme. Celina fez as duas coisas ao mesmo tempo

Brasília assistiu nesta semana a uma cena rara. Não foi a aprovação de um projeto. Não foi uma eleição. Nem uma troca de cargos. Foi uma demonstração de autoridade.
Durante meses, adversários e antigos aliados da governadora Celina Leão apostaram que a crise envolvendo o BRB e o Banco Master acabaria atingindo o coração do governo. Apostaram errado.
A Câmara Legislativa aprovou o projeto que permite ao Distrito Federal contratar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito. O passo era considerado essencial para estabilizar a situação do BRB após meses de turbulência.
Quem saiu fortalecido da votação não foi o MDB. Não foi Ibaneis Rocha. Não foi Rafael Prudente. Foi Celina.

Na política, a diferença entre vencer e sobreviver costuma ser enorme. Celina fez as duas coisas ao mesmo tempo.
Enquanto a governadora consolidava a solução para uma crise que ameaçava contaminar a economia local, o MDB mergulhava numa guerra interna que lembra aqueles navios antigos onde os marinheiros brigavam pelo leme enquanto a tempestade avançava.
O partido vive uma disputa pelo controle da própria sobrevivência. A cabeça de Wellington Luiz continua pendurada na parede como troféu de uma batalha que ainda nem terminou oficialmente. O anúncio formal virá depois. A decisão, como sempre acontece na política, veio antes.
Nos bastidores, ninguém esconde mais que o MDB do Distrito Federal mudou de mãos. O grupo liderado por Ibaneis Rocha assumiu o controle da legenda e trabalha para reorganizar o partido para 2026. Rafael Prudente foi lançado ao centro do tabuleiro como peça estratégica de um projeto eleitoral que pretende enfrentar a força política acumulada por Celina Leão.
O problema é que existe uma diferença entre desenhar um plano e executá-lo. Aliados da governadora enxergam na movimentação uma tentativa de pressionar o Palácio do Buriti a rever alianças e rearranjar a composição política para a próxima eleição.
Não deu certo.
Celina manteve Gustavo Rocha onde ele está. E talvez esse tenha sido o recado mais importante da semana.
Na política, gestos costumam valer mais que discursos. Ao preservar seus aliados e conduzir pessoalmente a articulação que resultou na aprovação da proposta relacionada ao BRB, a governadora sinalizou que não governa sob tutela de ninguém. Nem de antigos aliados. Nem de futuros adversários. Nem de dirigentes partidários.
O MDB, por sua vez, tenta reorganizar suas tropas. Ibaneis procura reconstruir protagonismo político num momento delicado. Rafael Prudente surge como alternativa eleitoral do grupo. Wellington Luiz resiste como pode. E Arruda reaparece mais uma vez nos bastidores de uma disputa que parece nunca abandonar completamente a política do Distrito Federal.
No fim das contas, a votação da Câmara produziu dois resultados. O primeiro foi financeiro. O segundo foi político. O financeiro tenta salvar o BRB. O político mostrou quem, neste momento, está com a caneta na mão e quem ainda está tentando encontrá-la.
Enquanto isso, a política segue seu curso. A caravana passa, os cães ladram e a Leoa continua rugindo.

